Ararinha-azul
Cyanopsitta spixii
Também chamada de arara-de-spix, ararinha.
Endêmica de um trecho da Caatinga baiana, desapareceu da natureza no ano 2000 e voltou a voar livre em 2022, no maior projeto de reintrodução já feito no Brasil.

Via Wikimedia Commons
- Nome científico
- Cyanopsitta spixii
- Família
- Psitacídeos (Psittacidae)
- Ordem
- Psittaciformes
- Tamanho
- 55 a 57 cm de comprimento total
- Peso
- cerca de 300 g
- Envergadura
- cerca de 65 cm
- Alimentação
- Granívora, Frugívora
- Atividade
- Diurna
- Conservação
- Extinta na natureza
Descrição geral
A ararinha-azul é uma arara de porte médio, inteiramente azul-acinzentada, com a cabeça de um tom mais claro e acinzentado que contrasta com o azul mais intenso das asas e da cauda. A pele nua ao redor do olho é escura, quase preta, e não amarela como na arara-azul-grande, detalhe que separa as duas espécies de imediato.
Sua história é a mais dramática da ornitologia brasileira. Descrita a partir de um exemplar coletado por Johann Baptist von Spix em 1819, permaneceu praticamente desconhecida por mais de um século e meio. Quando finalmente foi estudada em campo, nos anos 1980, restavam poucos indivíduos. O último macho selvagem foi visto pela última vez em outubro de 2000.
Marcas de campo
Os detalhes que resolvem a identificação em campo, em ordem de utilidade prática.
- Azul acinzentado por todo o corpo, sem amarelo em nenhuma parte
- Cabeça visivelmente mais clara e acinzentada que o resto do corpo
- Pele escura ao redor do olho, não amarela
- Porte médio, muito menor que a arara-azul-grande
Voz e vocalização
Um chamado curto, alto e ligeiramente rascante, descrito por observadores antigos como um kra-kra seco, bem diferente do grasnado grave das araras maiores.
Características físicas
O bico é escuro, robusto e proporcionalmente grande, adequado a sementes duras de plantas da Caatinga. A cauda é longa e afilada, e a envergadura relativamente estreita favorece voos manobráveis entre galhos secos de mata ciliar.
Diferente das araras do gênero Ara, não possui áreas extensas de pele nua na face. O anel periocular estreito e escuro dá à espécie uma expressão distinta, mais discreta.
Habitat
Vivia em um ambiente extremamente específico: as matas de caraibeira que acompanham riachos temporários no interior da Caatinga baiana, na região de Curaçá. A caraibeira é uma árvore de porte alto, de flores amarelas vistosas, que desenvolve ocos usados como ninho e dormitório.
Essa dependência de uma faixa estreita de mata ciliar em pleno semiárido é a raiz da vulnerabilidade da espécie: bastou a remoção dessas árvores ao longo de poucas décadas para que a área de vida deixasse de existir, mesmo com a Caatinga ao redor aparentemente intacta.
Alimentação
Os registros de campo indicam dieta baseada em sementes de faveleira e pinhão-bravo, duas euforbiáceas típicas da Caatinga, complementadas por frutos de umbuzeiro, licuri e outras plantas do semiárido.
A alimentação era feita no alto das plantas, em silêncio, com deslocamentos entre poucos pontos conhecidos ao longo do riacho. Aves reintroduzidas foram treinadas antes da soltura para reconhecer justamente essas sementes nativas.
Comportamento
As observações do único casal remanescente nos anos 1990 mostraram uma ave de rotina rígida: mesmos horários, mesmos poleiros, mesma rota entre dormitório e área de alimentação. Essa previsibilidade foi útil para a pesquisa, mas facilitava enormemente a captura por traficantes.
Em cativeiro, demonstra a curiosidade e a sociabilidade típicas dos psitacídeos, com forte formação de vínculos de casal. O comportamento das aves soltas em Curaçá desde 2022 vem sendo documentado por telemetria e revelando detalhes que nunca foram observados na população original.
Reprodução
Nidifica em ocos de caraibeira, com postura de dois a três ovos e incubação de cerca de 26 dias. O casal defende ativamente a cavidade contra competidores, e a disputa por ocos com abelhas africanizadas e com outras aves foi apontada como um dos fatores que reduziram o sucesso reprodutivo.
As primeiras reproduções em vida livre depois da reintrodução ocorreram na década de 2020 e representam o marco mais importante do projeto: significam que a espécie voltou a completar o ciclo sem apoio direto.
Distribuição geográfica
A área de ocorrência histórica conhecida se limita ao norte da Bahia, na região do município de Curaçá, às margens de riachos como o Melancia. Registros antigos atribuídos a outras localidades são hoje considerados duvidosos ou baseados em aves de cativeiro.
É, portanto, uma das aves com a menor área de distribuição original já registrada entre as araras: um endemismo pontual dentro do único bioma exclusivamente brasileiro.
Curiosidades
- A espécie ganhou fama mundial ao inspirar o protagonista da animação Rio, de 2011, que levou milhões de pessoas a conhecerem o caso de uma ave brasileira extinta na natureza.
- Praticamente todos os indivíduos vivos descendem de um punhado de aves que estavam em cativeiro particular quando a população selvagem colapsou, o que torna o manejo genético do plantel uma operação de precisão.
- As primeiras solturas, em junho de 2022, envolveram aves nascidas na Alemanha e aclimatadas em um centro construído especialmente em Curaçá.
- A recuperação depende tanto das aves quanto do replantio de caraibeiras, árvores que levarão décadas para oferecer ocos naturais adequados.
Como observar
Onde e quando procurar
Não é uma ave para busca casual. As aves reintroduzidas vivem em área monitorada no município de Curaçá, na Bahia, e a observação depende de visitas organizadas junto ao projeto de conservação local. O respeito às regras de aproximação é parte essencial do processo: perturbação em fase de adaptação pode comprometer anos de trabalho.
Estado de conservação
Classificada como Extinta na natureza, categoria que reconhece a sobrevivência apenas em cativeiro no momento da avaliação. O programa de reintrodução em Curaçá, conduzido por instituições brasileiras e estrangeiras, é acompanhado internacionalmente como teste de referência para saber se uma ave pode ser trazida de volta ao ambiente do qual desapareceu.
Sobre esta ficha
Texto original produzido para o Taxogre a partir de literatura ornitológica brasileira, listas taxonômicas de referência e avaliações de estado de conservação. A metodologia e as fontes consultadas estão descritas na página de metodologia. Encontrou uma imprecisão? Envie uma correção.