Gralha-azul
Cyanocorax caeruleus
Também chamada de gralha, cancã-azul.
Símbolo do Paraná e plantadora de araucárias: enterra pinhões que esquece, e cada semente esquecida pode se tornar uma árvore de trinta metros.

Via Wikimedia Commons
- Nome científico
- Cyanocorax caeruleus
- Família
- Corvídeos (Corvidae)
- Ordem
- Passeriformes
- Tamanho
- 38 a 40 cm de comprimento total
- Peso
- 260 a 300 g
- Envergadura
- cerca de 55 cm
- Alimentação
- Onívora, Frugívora, Insetívora
- Atividade
- Diurna
- Conservação
- Quase ameaçada
Descrição geral
A gralha-azul é um corvídeo grande e inconfundível, de azul-cobalto intenso no corpo e nas asas, com a cabeça, o pescoço e o peito em preto profundo. A transição entre o preto e o azul é nítida, e sob luz direta a plumagem mostra brilho metálico. É uma ave de porte imponente para um passeriforme.
Além da aparência, o comportamento chama atenção: é ruidosa, curiosa, social e visivelmente inteligente. Grupos investigam qualquer novidade na floresta e comunicam constantemente por um repertório vocal amplo, característica compartilhada com corvos, gaios e pegas do mundo inteiro.
Marcas de campo
Os detalhes que resolvem a identificação em campo, em ordem de utilidade prática.
- Azul-cobalto intenso com cabeça, pescoço e peito negros
- Porte grande para um passeriforme, quase 40 cm
- Vive em grupos ruidosos de 4 a 10 aves
- Associada a matas de araucária no Sul do Brasil
Voz e vocalização
Gritos altos, roucos e variados, emitidos em coro pelo grupo. O repertório é amplo e inclui imitações de outras aves e sons ambientais, típico dos corvídeos.
Características físicas
O bico é forte, reto e robusto, ferramenta de generalista capaz de abrir pinhões, matar pequenos vertebrados, cavar no solo e manipular objetos. As patas são fortes e usadas para segurar alimento contra o galho enquanto o bico trabalha.
O cérebro dos corvídeos é grande em relação ao corpo, com desenvolvimento notável nas áreas ligadas à memória espacial. Isso é diretamente funcional para uma ave que enterra alimento em dezenas de pontos diferentes e precisa recuperá-lo semanas depois.
Habitat
Vive na Mata Atlântica do Sul e do Sudeste, com forte associação às matas de araucária do planalto meridional. Ocupa também florestas de encosta, capoeiras altas e bordas, do nível do mar até cerca de 1.800 metros.
A ligação com a araucária é tão marcante que a distribuição da gralha-azul acompanha de perto a antiga extensão dos pinheirais do Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul e do sul de São Paulo e Minas Gerais.
Alimentação
É onívora e oportunista: come pinhões, frutos, insetos grandes, ovos e ninhegos de outras aves, pequenos vertebrados, sementes e restos de alimento humano em áreas de camping e beira de estrada.
O pinhão da araucária é o item mais importante da dieta no inverno, e o comportamento em torno dele é ecologicamente decisivo. A ave carrega pinhões para longe da árvore-mãe e os enterra em vários pontos como reserva de alimento.
Comportamento
Vive em grupos familiares de quatro a dez indivíduos que permanecem juntos ao longo do ano, com reprodução cooperativa: aves além do casal ajudam a alimentar os filhotes e a defender o território.
É notavelmente curiosa e não tem medo de humanos em áreas onde não é perseguida. Grupos seguem caminhantes por trilhas, investigam mochilas e mesas de piquenique e emitem alarmes coletivos diante de gaviões e cobras.
Reprodução
Constrói ninho em plataforma robusta de gravetos, forrada com material fino, no alto de árvores, frequentemente em araucárias. A postura tem dois a quatro ovos, incubados pela fêmea por cerca de 18 a 20 dias.
Os filhotes são alimentados por todo o grupo e deixam o ninho com aproximadamente três semanas, permanecendo dependentes por mais algumas semanas. A cooperação aumenta significativamente as chances de sobrevivência da ninhada.
Distribuição geográfica
Endêmica do Brasil, com ocorrência marginal no leste do Paraguai e no nordeste da Argentina. No país, distribui-se pelo Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, sul de São Paulo, sul de Minas Gerais e Rio de Janeiro serrano.
A retração das matas de araucária, que perderam mais de 95% da cobertura original, reduziu proporcionalmente a área de distribuição da espécie ao longo do século 20.
Curiosidades
- É a ave símbolo do estado do Paraná e uma das aves mais presentes no imaginário cultural do Sul do Brasil, com forte presença em folclore, literatura e artesanato.
- Enterra pinhões como reserva alimentar e não recupera todos. Cada pinhão esquecido pode germinar longe da árvore-mãe, o que faz da gralha-azul um dos principais agentes de dispersão da araucária.
- Como todos os corvídeos, é capaz de reconhecer indivíduos humanos e de aprender por observação, características associadas a alta capacidade cognitiva.
- A reprodução cooperativa, com irmãos mais velhos ajudando a criar a nova ninhada, é típica do gênero Cyanocorax e ainda pouco divulgada fora do meio científico.
Como observar
Onde e quando procurar
Fácil em parques nacionais e estaduais com araucária no Sul: Parque Nacional do Iguaçu, Vila Velha, São Joaquim e a região de Campos do Jordão e Urubici. Grupos são ruidosos e se aproximam de áreas de camping. O inverno, época do pinhão, é o melhor período, porque as aves ficam concentradas nas araucárias produtivas.
Estado de conservação
Classificada como Quase ameaçada, principalmente por causa da destruição histórica das matas de araucária. A conservação da espécie e a da araucária são inseparáveis: proteger a gralha significa garantir a regeneração natural do pinheiro, e vice-versa.
Sobre esta ficha
Texto original produzido para o Taxogre a partir de literatura ornitológica brasileira, listas taxonômicas de referência e avaliações de estado de conservação. A metodologia e as fontes consultadas estão descritas na página de metodologia. Encontrou uma imprecisão? Envie uma correção.