Maçarico-de-papo-vermelho
Calidris canutus
Também chamada de maçarico-de-peito-vermelho, maçarico-nó.
Voa mais de 15 mil quilômetros do Ártico canadense à Patagônia, parando em poucas praias brasileiras para dobrar de peso antes da próxima etapa.

Via Wikimedia Commons
- Nome científico
- Calidris canutus
- Família
- Escolopacídeos (Scolopacidae)
- Ordem
- Charadriiformes
- Tamanho
- 23 a 26 cm de comprimento total
- Peso
- 100 a 200 g, variando muito com a fase migratória
- Envergadura
- cerca de 50 cm
- Alimentação
- Carnívora, Insetívora
- Atividade
- Diurna
- Conservação
- Quase ameaçada
Descrição geral
O maçarico-de-papo-vermelho é uma ave limícola de porte médio, corpo compacto, bico reto e relativamente curto e pernas curtas esverdeadas. No Brasil, é visto quase sempre em plumagem de inverno: cinza-acastanhado no dorso, esbranquiçado no ventre, sem nada de vermelho.
O nome vem da plumagem reprodutiva, exibida no Ártico: todo o peito e o ventre ficam de um ferrugíneo-avermelhado intenso. Aves em transição, vistas no Brasil em abril e maio, mostram peito parcialmente avermelhado e são as mais espetaculares de observar.
Marcas de campo
Os detalhes que resolvem a identificação em campo, em ordem de utilidade prática.
- Corpo compacto com bico reto e curto, pernas curtas esverdeadas
- Cinza-acastanhado no dorso e esbranquiçado no ventre no inverno
- Peito ferrugíneo em aves em transição, entre abril e maio
- Sempre em bandos, em praias e bancos de lama de maré
Voz e vocalização
Notas curtas e roucas, emitidas em voo dentro do bando. É uma ave discreta vocalmente, e a detecção depende quase sempre da observação visual em bandos.
Características físicas
O bico é uma sonda tátil com receptores sensoriais na ponta, capaz de localizar moluscos enterrados na areia sem visão. A ave engole conchas pequenas inteiras e as tritura no estômago muscular.
A fisiologia migratória é extraordinária: antes de cada etapa longa, a ave duplica o peso corporal acumulando gordura, e reduz temporariamente o tamanho de órgãos internos, incluindo o estômago, para economizar massa. Ao chegar, reconstrói os órgãos e volta a se alimentar.
Habitat
No Brasil, ocupa praias arenosas, bancos de lama de maré, lagoas costeiras, estuários e salinas. É estritamente costeira e não ocorre no interior do continente.
Depende de um punhado de pontos de parada específicos ao longo da rota migratória, chamados de sítios de escala. A Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul, e a costa do Maranhão e do Pará estão entre os mais importantes das Américas.
Alimentação
Alimenta-se de moluscos bivalves pequenos, crustáceos, vermes marinhos e insetos aquáticos, localizados por sondagem tátil na areia e na lama.
A eficiência alimentar nos sítios de escala é decisiva. A ave precisa acumular gordura suficiente para voar milhares de quilômetros sem parar, e a redução da oferta de alimento em um único ponto da rota pode comprometer toda a população.
Comportamento
É intensamente gregário e forma bandos compactos que forrageiam e voam juntos. Bandos em voo executam manobras sincronizadas, com o grupo mudando de direção em bloco, o que dificulta o ataque de falcões.
A rotina no Brasil é ditada pela maré: as aves forrageiam na lama exposta na maré baixa e descansam em bandos densos em áreas altas durante a maré cheia. Esse ciclo se repete todos os dias durante a estadia.
Reprodução
Não se reproduz no Brasil. A nidificação acontece na tundra do Ártico canadense, entre junho e agosto, em ninhos rasos no solo com quatro ovos camuflados.
Os adultos partem antes dos jovens, que fazem a primeira migração sem acompanhamento e ainda assim encontram os sítios de escala corretos. Como essa navegação funciona sem aprendizado social é uma das perguntas abertas da biologia da migração.
Distribuição geográfica
No Brasil, é visitante entre setembro e abril, com maior concentração no litoral do Rio Grande do Sul, do Maranhão e do Pará. Também é registrado em pontos do litoral do Sudeste e do Nordeste.
A subespécie que passa pelo Brasil, Calidris canutus rufa, se reproduz no Ártico canadense e inverna na Patagônia e na Terra do Fogo, cobrindo mais de 15 mil quilômetros em cada direção. É uma das maiores migrações do planeta.
Curiosidades
- Duplica o peso corporal antes de cada etapa migratória e reduz temporariamente o tamanho de órgãos internos para economizar massa em voo.
- Um indivíduo anilhado conhecido como Moonbird acumulou distância voada estimada em mais de meio milhão de quilômetros ao longo de duas décadas de vida, o equivalente a ir e voltar da Lua.
- A população da subespécie rufa caiu drasticamente nas últimas décadas, em parte por causa da sobrepesca do caranguejo-ferradura na baía de Delaware, nos Estados Unidos, cujos ovos são alimento crítico em uma etapa da rota.
- Jovens fazem a primeira migração sem acompanhamento de adultos e ainda assim encontram os pontos de parada corretos, o que indica navegação inata.
Como observar
Onde e quando procurar
Requer ir ao lugar certo na época certa. A Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul, entre outubro e abril, é o melhor local do Brasil, e é onde se concentram as pesquisas com a espécie. No litoral do Maranhão e do Pará, a observação depende de acesso a bancos de lama de maré. Use luneta e observe a distância: bandos espantados gastam energia que precisam para migrar.
Estado de conservação
Classificada como Quase ameaçada globalmente, com a subespécie rufa em situação bem mais crítica. As ameaças são a perda e a degradação de sítios de escala, a redução de alimento em pontos-chave da rota, a perturbação por veículos e pessoas em praias e as mudanças climáticas afetando a tundra de nidificação. É uma espécie que só pode ser conservada por cooperação internacional ao longo de toda a rota.
Sobre esta ficha
Texto original produzido para o Taxogre a partir de literatura ornitológica brasileira, listas taxonômicas de referência e avaliações de estado de conservação. A metodologia e as fontes consultadas estão descritas na página de metodologia. Encontrou uma imprecisão? Envie uma correção.