60 espécies descritas em fichas completas 10 endêmicas do Brasil 7 biomas mapeados 5 em risco de extinção
Migratória Aves marinhas e costeiras

Maçarico-de-papo-vermelho

Calidris canutus

Também chamada de maçarico-de-peito-vermelho, maçarico-nó.

Voa mais de 15 mil quilômetros do Ártico canadense à Patagônia, parando em poucas praias brasileiras para dobrar de peso antes da próxima etapa.

Maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus)

Via Wikimedia Commons

Nome científico
Calidris canutus
Família
Escolopacídeos (Scolopacidae)
Ordem
Charadriiformes
Tamanho
23 a 26 cm de comprimento total
Peso
100 a 200 g, variando muito com a fase migratória
Envergadura
cerca de 50 cm
Alimentação
Carnívora, Insetívora
Atividade
Diurna
Conservação
Quase ameaçada

Descrição geral

O maçarico-de-papo-vermelho é uma ave limícola de porte médio, corpo compacto, bico reto e relativamente curto e pernas curtas esverdeadas. No Brasil, é visto quase sempre em plumagem de inverno: cinza-acastanhado no dorso, esbranquiçado no ventre, sem nada de vermelho.

O nome vem da plumagem reprodutiva, exibida no Ártico: todo o peito e o ventre ficam de um ferrugíneo-avermelhado intenso. Aves em transição, vistas no Brasil em abril e maio, mostram peito parcialmente avermelhado e são as mais espetaculares de observar.

Marcas de campo

Os detalhes que resolvem a identificação em campo, em ordem de utilidade prática.

  • Corpo compacto com bico reto e curto, pernas curtas esverdeadas
  • Cinza-acastanhado no dorso e esbranquiçado no ventre no inverno
  • Peito ferrugíneo em aves em transição, entre abril e maio
  • Sempre em bandos, em praias e bancos de lama de maré

Voz e vocalização

Notas curtas e roucas, emitidas em voo dentro do bando. É uma ave discreta vocalmente, e a detecção depende quase sempre da observação visual em bandos.

Características físicas

O bico é uma sonda tátil com receptores sensoriais na ponta, capaz de localizar moluscos enterrados na areia sem visão. A ave engole conchas pequenas inteiras e as tritura no estômago muscular.

A fisiologia migratória é extraordinária: antes de cada etapa longa, a ave duplica o peso corporal acumulando gordura, e reduz temporariamente o tamanho de órgãos internos, incluindo o estômago, para economizar massa. Ao chegar, reconstrói os órgãos e volta a se alimentar.

Habitat

No Brasil, ocupa praias arenosas, bancos de lama de maré, lagoas costeiras, estuários e salinas. É estritamente costeira e não ocorre no interior do continente.

Depende de um punhado de pontos de parada específicos ao longo da rota migratória, chamados de sítios de escala. A Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul, e a costa do Maranhão e do Pará estão entre os mais importantes das Américas.

Alimentação

Alimenta-se de moluscos bivalves pequenos, crustáceos, vermes marinhos e insetos aquáticos, localizados por sondagem tátil na areia e na lama.

A eficiência alimentar nos sítios de escala é decisiva. A ave precisa acumular gordura suficiente para voar milhares de quilômetros sem parar, e a redução da oferta de alimento em um único ponto da rota pode comprometer toda a população.

Comportamento

É intensamente gregário e forma bandos compactos que forrageiam e voam juntos. Bandos em voo executam manobras sincronizadas, com o grupo mudando de direção em bloco, o que dificulta o ataque de falcões.

A rotina no Brasil é ditada pela maré: as aves forrageiam na lama exposta na maré baixa e descansam em bandos densos em áreas altas durante a maré cheia. Esse ciclo se repete todos os dias durante a estadia.

Reprodução

Não se reproduz no Brasil. A nidificação acontece na tundra do Ártico canadense, entre junho e agosto, em ninhos rasos no solo com quatro ovos camuflados.

Os adultos partem antes dos jovens, que fazem a primeira migração sem acompanhamento e ainda assim encontram os sítios de escala corretos. Como essa navegação funciona sem aprendizado social é uma das perguntas abertas da biologia da migração.

Distribuição geográfica

No Brasil, é visitante entre setembro e abril, com maior concentração no litoral do Rio Grande do Sul, do Maranhão e do Pará. Também é registrado em pontos do litoral do Sudeste e do Nordeste.

A subespécie que passa pelo Brasil, Calidris canutus rufa, se reproduz no Ártico canadense e inverna na Patagônia e na Terra do Fogo, cobrindo mais de 15 mil quilômetros em cada direção. É uma das maiores migrações do planeta.

Curiosidades

  • Duplica o peso corporal antes de cada etapa migratória e reduz temporariamente o tamanho de órgãos internos para economizar massa em voo.
  • Um indivíduo anilhado conhecido como Moonbird acumulou distância voada estimada em mais de meio milhão de quilômetros ao longo de duas décadas de vida, o equivalente a ir e voltar da Lua.
  • A população da subespécie rufa caiu drasticamente nas últimas décadas, em parte por causa da sobrepesca do caranguejo-ferradura na baía de Delaware, nos Estados Unidos, cujos ovos são alimento crítico em uma etapa da rota.
  • Jovens fazem a primeira migração sem acompanhamento de adultos e ainda assim encontram os pontos de parada corretos, o que indica navegação inata.

Como observar

Onde e quando procurar

Requer ir ao lugar certo na época certa. A Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul, entre outubro e abril, é o melhor local do Brasil, e é onde se concentram as pesquisas com a espécie. No litoral do Maranhão e do Pará, a observação depende de acesso a bancos de lama de maré. Use luneta e observe a distância: bandos espantados gastam energia que precisam para migrar.

Estado de conservação

Quase ameaçada (NT — Ainda fora das categorias de risco, mas em tendência de queda.)

Classificada como Quase ameaçada globalmente, com a subespécie rufa em situação bem mais crítica. As ameaças são a perda e a degradação de sítios de escala, a redução de alimento em pontos-chave da rota, a perturbação por veículos e pessoas em praias e as mudanças climáticas afetando a tundra de nidificação. É uma espécie que só pode ser conservada por cooperação internacional ao longo de toda a rota.

Sobre esta ficha

Texto original produzido para o Taxogre a partir de literatura ornitológica brasileira, listas taxonômicas de referência e avaliações de estado de conservação. A metodologia e as fontes consultadas estão descritas na página de metodologia. Encontrou uma imprecisão? Envie uma correção.