Maçarico-de-papo-vermelho
Calidris canutus
Voa mais de 15 mil quilômetros do Ártico canadense à Patagônia, parando em poucas praias brasileiras para dobrar de peso antes da próxima etapa.
O Brasil recebe migrantes do Ártico e da Patagônia e exporta aves para o hemisfério norte. Um calendário para entender os movimentos que acontecem no céu do país.
Leitura de 8 min · atualizado em 2026-09-02
Quando se fala de aves migratórias no Brasil, três fenômenos completamente diferentes são frequentemente confundidos. O primeiro são as migrantes neárticas: aves que se reproduzem na América do Norte, muitas na tundra ártica, e passam o verão austral no Brasil ou mais ao sul. O maçarico-de-papo-vermelho é o exemplo clássico.
O segundo são as migrantes austrais: aves que se reproduzem no sul da América do Sul, incluindo o sul do Brasil, e sobem para o norte durante o inverno austral. A tesourinha faz exatamente isso, e é por isso que ela desaparece de São Paulo em maio e reaparece em setembro.
O terceiro são os deslocamentos internos: movimentos altitudinais, latitudinais ou sazonais dentro do próprio país, sem cruzar fronteiras. A jacutinga sobe e desce a encosta da Mata Atlântica acompanhando a frutificação. Muitas aves amazônicas se deslocam entre terra firme e várzea conforme o pulso das cheias.
As datas variam entre espécies e entre anos, mas o padrão geral é bastante regular e útil para planejar observações.
Uma ave que voa milhares de quilômetros não faz o trajeto de uma vez. Ela depende de um número pequeno de pontos de parada onde consegue se alimentar intensamente e recuperar reservas de gordura. Esses locais são chamados de sítios de escala, e a característica mais importante deles é que não são substituíveis.
No Brasil, os principais são a Lagoa do Peixe, no litoral do Rio Grande do Sul, os bancos de lama de maré do litoral do Maranhão e do Pará, o Delta do Parnaíba e a costa do Amapá. Perder a capacidade de alimentação em um único desses pontos afeta populações inteiras que se reproduzem a dez mil quilômetros de distância.
É por isso que a conservação de aves migratórias não pode ser feita por um país isolado. Um maçarico que se reproduz no Canadá, alimenta-se nos Estados Unidos, para no Brasil e passa o verão na Argentina depende simultaneamente de decisões em quatro países.
A navegação migratória combina vários sistemas. Aves usam a posição do sol, o padrão de luz polarizada do céu, a orientação das estrelas e a percepção do campo magnético terrestre, provavelmente por meio de proteínas sensíveis à luz nos olhos e de partículas de magnetita em tecidos do bico.
O aspecto mais impressionante é que boa parte disso é inata. Jovens de várias espécies fazem a primeira migração sem acompanhamento de adultos e ainda assim chegam aos sítios de escala corretos. A rota está codificada geneticamente em alguma medida, e a experiência refina esse mapa nas viagens seguintes.
Antes de uma etapa migratória longa, muitas aves duplicam o peso corporal acumulando gordura em poucas semanas. Algumas vão além e reduzem temporariamente o tamanho de órgãos internos, incluindo estômago e intestino, para economizar massa durante o voo, reconstruindo-os na chegada.
Esse ajuste extremo tem uma consequência prática para quem observa: uma ave em preparação para migrar não pode ser perturbada. Bandos espantados repetidamente em uma praia gastam energia que estava destinada a atravessar um continente, e o custo aparece do outro lado do hemisfério.
Movimentos migratórios não acontecem apenas em praias remotas. Em setembro, a tesourinha reaparece nos fios de energia de qualquer área rural do Centro-Sul. Em outubro e novembro, bandos de andorinhas se concentram em dormitórios urbanos. Em março e abril, o desaparecimento de espécies familiares do quintal é, em si, um registro de migração.
Anotar as datas de primeira e última observação de espécies migratórias no seu bairro, ao longo de alguns anos, é uma das formas mais acessíveis de contribuir com dados reais. Mudanças nessas datas são um dos indicadores mais sensíveis de alterações climáticas em curso.
Do acervo
As duas primeiras espécies são migrantes de longa distância e recebem a marcação Migratória nos filtros da biblioteca: o maçarico cruza o continente entre o Ártico e a Terra do Fogo, e a tesourinha faz a rota austral entre o sul do continente e a Amazônia. As duas seguintes mostram por que a marcação é restritiva: o irerê se desloca conforme a água aparece e desaparece, e populações do sul do sabiá-laranjeira descem de altitude no inverno. Nenhum dos dois é migrante clássico, mas ambos se movem de forma previsível ao longo do ano.
Calidris canutus
Voa mais de 15 mil quilômetros do Ártico canadense à Patagônia, parando em poucas praias brasileiras para dobrar de peso antes da próxima etapa.
Tyrannus savana
Cauda longuíssima em forma de tesoura e uma das migrações mais impressionantes do continente: cruza a América do Sul duas vezes por ano.
Dendrocygna viduata
Marreca de face branca e assobio inconfundível, forma bandos de milhares de aves e é uma das poucas aves aquáticas que se dão bem em lagos urbanos.
Turdus rufiventris
Ave nacional do Brasil por decreto, dona de um dos cantos mais reconhecidos do país e presença garantida em quintais e praças do Sudeste e do Sul.
Continue lendo
Um roteiro prático para sair de casa e identificar as primeiras espécies, sem equipamento caro e sem conhecimento prévio.
Cerca de 300 espécies de aves existem apenas no território brasileiro. Entender esse conceito é entender por que a conservação aqui não pode ser delegada a ninguém.
Como transformar um quintal, uma varanda ou uma praça em ponto de observação, e quais espécies esperar em cada situação.
O que significam Vulnerável, Em perigo e Criticamente em perigo, e o que os casos brasileiros ensinam sobre o que funciona e o que não funciona em conservação.
O método que observadores experientes usam para chegar a um nome, começando por estrutura e comportamento e deixando a cor para o fim.