Anu-branco
Guira guira
Cuco social de topete desgrenhado que vive em grupos permanentes, põe os ovos em ninho comunitário e toma sol com as asas abertas em manhãs frias.
Como transformar um quintal, uma varanda ou uma praça em ponto de observação, e quais espécies esperar em cada situação.
Leitura de 7 min · atualizado em 2026-09-02
É comum tratar a cidade como o lugar onde não há natureza. Para as aves, cidades brasileiras arborizadas são ambientes de borda: mosaicos de árvores, áreas abertas, água e estruturas verticais que se parecem funcionalmente com capoeiras, cerrado ralo e barrancos.
Algumas espécies foram claramente beneficiadas. O periquitão-maracanã forma bandos de mais de mil aves em dormitórios urbanos. A rolinha-roxa, o bem-te-vi, o sanhaço-cinzento, o sabiá-laranjeira e a corruíra são hoje mais abundantes em áreas urbanas que nos ambientes naturais vizinhos. Isso não compensa a perda de florestas, mas significa que um quintal bem pensado é um ativo real.
A ordem de prioridade surpreende quem espera começar por um comedouro. Água limpa é o item mais eficaz e o menos usado. Um prato raso e largo, com pedras para pouso, trocado diariamente, traz mais espécies do que qualquer outra intervenção, especialmente na estação seca.
Depois vem a estrutura da vegetação. Aves precisam de camadas: cobertura densa baixa para se esconder, arbustos médios para nidificar e árvores altas para vigiar e cantar. Um quintal de gramado aparado com uma única árvore no meio é um deserto funcional, independentemente do tamanho.
Só então entram frutos e néctar. Plantas nativas frutíferas e floríferas são muito superiores a comedouros artificiais, porque produzem alimento sem risco sanitário e ainda oferecem insetos, que são a base da alimentação dos filhotes de quase todas as aves.
Comedouros com frutas frescas funcionam muito bem no Brasil e trazem sanhaços, saíras, tiês, cambacicas e gaturamos a poucos metros de uma varanda. Mas exigem disciplina, porque um comedouro mal cuidado concentra aves e transmite doenças.
A regra prática: banana e mamão maduros em pedaços, em quantidade pequena, retirados no fim do dia. Lavagem do suporte com água e sabão pelo menos duas vezes por semana. Nunca pão, biscoito, alimentos salgados, açucarados ou processados. Água com açúcar para beija-flores só na proporção de uma parte de açúcar para cinco de água, sem corante, trocada todos os dias em clima quente.
O primeiro é a colisão com vidros. Superfícies de vidro refletem vegetação e céu, e aves voam contra elas em velocidade. Estima-se que colisões com edificações matem centenas de milhões de aves por ano no mundo. A solução é barata: adesivos, fitas ou padrões aplicados na face externa do vidro, com espaçamento máximo de dez centímetros, que quebram a reflexão.
O segundo é o gato doméstico. Gatos com acesso livre à rua são predadores extremamente eficientes de aves, e o impacto é documentado em estudos de vários países. Não se trata de culpar o animal: trata-se de reconhecer que um gato mantido dentro de casa ou em área telada é a diferença entre um quintal que sustenta aves e um quintal que as consome.
Manter aves silvestres em gaiola é crime ambiental no Brasil, e a demanda por pássaros canoros é a razão pela qual espécies como o curió e o trinca-ferro desapareceram da natureza em várias regiões do Sudeste. Um canário-da-terra na gaiola custa outro canário-da-terra na natureza, no mínimo.
Também não retire ninhos. Fornos de joão-de-barro, ninhos de bem-te-vi em calhas e ninhos de rolinha em floreiras são estruturas protegidas por lei durante o período reprodutivo. Se o local é inconveniente, espere as duas ou três semanas até os filhotes voarem: eles não voltam.
Na maioria dos casos, a resposta correta é não fazer nada. Filhotes de muitas espécies deixam o ninho antes de voar bem e passam alguns dias no chão ou em arbustos baixos, sendo alimentados pelos pais. Recolher esse filhote é retirá-lo de um sistema que está funcionando.
Se o filhote está em local com risco imediato, como o meio de uma rua, coloque-o em um arbusto ou galho próximo, no ponto mais alto que você alcançar com segurança, e afaste-se. Os pais o encontram pelo som. Se estiver ferido, evidentemente doente ou se você tem certeza de que os pais morreram, o caminho é acionar o órgão ambiental estadual ou um centro de triagem de animais silvestres. Criar em casa não é opção, é ilegal e reduz drasticamente a chance de a ave sobreviver depois.
Do acervo
Todas essas espécies ocorrem regularmente em áreas urbanas brasileiras com alguma arborização. A maioria pode aparecer no seu quintal sem nenhum esforço da sua parte.
Guira guira
Cuco social de topete desgrenhado que vive em grupos permanentes, põe os ovos em ninho comunitário e toma sol com as asas abertas em manhãs frias.
Ara ararauna
A arara de contraste mais marcante do país, azul por cima e amarelo-ouro por baixo, hoje comum até em avenidas de capitais brasileiras.
Hydropsalis torquata
O macho arrasta uma cauda de mais de meio metro em voo noturno, e durante o dia a ave desaparece completamente contra o chão graças à camuflagem perfeita.
Pitangus sulphuratus
A ave que dá nome ao próprio canto, presente em todos os estados brasileiros e capaz de comer de insetos a peixes e frutas maduras.
Coereba flaveola
Minúscula, de bico curvo e sobrancelha branca, fura a base das flores para roubar néctar sem polinizar e é uma presença constante em comedouros brasileiros.
Sicalis flaveola
Amarelo-ouro com fronte alaranjada, é a ave nativa mais capturada para gaiola no Brasil e uma presença constante nas cidades do interior.
Caracara plancus
Falconídeo oportunista de topete negro e face nua avermelhada, come de tudo, anda no chão e é o primeiro a chegar em queimadas e atropelamentos.
Troglodytes musculus
Minúscula, de cauda erguida e canto desproporcional ao corpo, nidifica em qualquer buraco disponível, de vaso de planta a caixa de correio.
Athene cunicularia
A coruja que vive no chão: escava tocas em campo aberto, é ativa também de dia e olha o observador de frente sem sair do lugar.
Paroaria dominicana
Endêmico do Nordeste, exibe cabeça vermelho-escarlate, dorso negro e ventre branco: é a ave mais emblemática da Caatinga.
Ardea alba
A garça mais alta do Brasil, caça por imobilidade absoluta e quase foi extinta no início do século 20 por causa das penas usadas em chapéus.
Rupornis magnirostris
A ave de rapina mais comum do Brasil: caça de espera em postes e fios, do centro das capitais às bordas da Amazônia.
Dendrocygna viduata
Marreca de face branca e assobio inconfundível, forma bandos de milhares de aves e é uma das poucas aves aquáticas que se dão bem em lagos urbanos.
Jacana jacana
Anda sobre plantas flutuantes com dedos absurdamente longos, e é a fêmea que domina o território enquanto vários machos cuidam dos ovos.
Furnarius rufus
O arquiteto mais famoso da fauna brasileira: constrói com barro um forno de até cinco quilos, com câmara interna protegida por uma parede curva.
Pionus maximiliani
Reconhecível pelo voo com asas batendo abaixo da linha do corpo e pelas penas vermelhas sob a cauda, é a maritaca que enche de barulho as cidades do Sudeste.
Megaceryle torquata
O maior martim-pescador das Américas: mergulha de cabeça a partir de um galho sobre a água e cava o ninho em túneis de até dois metros em barrancos.
Amazona aestiva
O papagaio brasileiro por excelência: verde com fronte azul e amarelo na face, famoso pela fala e principal vítima do tráfico de animais no país.
Psittacara leucophthalmus
O psitacídeo mais urbano do Brasil: bandos verdes e ruidosos que cruzam as capitais em rota fixa entre dormitório e áreas de alimentação.
Dryocopus lineatus
Topete vermelho vivo e duas linhas brancas nas costas: martela troncos com impactos que somariam concussão em qualquer outro animal.
Colaptes campestris
O pica-pau que abandonou as árvores: procura formigas e cupins no chão do Cerrado e cava o ninho em barrancos e cupinzeiros de terra.
Vanellus chilensis
O vigia do campo brasileiro: detecta qualquer aproximação e denuncia com gritos, além de atacar em picada quem se aproxime do ninho no chão.
Columbina talpacoti
A pomba nativa mais comum do Brasil, de tom ferrugíneo intenso no macho, caminha em casais pelo chão de praças e calçadas de todo o país.
Mimus saturninus
O grande imitador da avifauna brasileira: incorpora ao próprio canto trechos de dezenas de outras espécies e canta de cima de mourões e antenas.
Turdus rufiventris
Ave nacional do Brasil por decreto, dona de um dos cantos mais reconhecidos do país e presença garantida em quintais e praças do Sudeste e do Sul.
Dacnis cayana
Macho azul-turquesa com máscara negra, fêmea verde-esmeralda: um dos contrastes mais bonitos entre sexos na avifauna brasileira.
Tangara seledon
Endêmica da Mata Atlântica e possivelmente a ave mais colorida do Brasil, combina verde-esmeralda, turquesa, laranja e azul em treze centímetros.
Thraupis sayaca
Azul-acinzentado com brilho esverdeado nas asas, é o traupídeo mais comum das cidades brasileiras e o primeiro a chegar em qualquer comedouro de frutas.
Tyto furcata
Face em forma de coração que funciona como antena parabólica: localiza roedores pelo som com precisão suficiente para caçar na escuridão total.
Tyrannus savana
Cauda longuíssima em forma de tesoura e uma das migrações mais impressionantes do continente: cruza a América do Sul duas vezes por ano.
Zonotrichia capensis
Coroa listrada, colar ferrugíneo e um canto que muda de dialeto conforme a região: é a ave mais estudada da América do Sul em pesquisas sobre aprendizado vocal.
Ramphocelus bresilius
Endêmico da Mata Atlântica e um dos vermelhos mais intensos da natureza brasileira, com bico de mandíbula inferior esbranquiçada.
Volatinia jacarina
Minúsculo e todo preto-azulado, o macho salta verticalmente no ar centenas de vezes por dia para exibir a mancha branca escondida sob a asa.
Saltator similis
Bico maciço capaz de partir sementes duras e um canto potente que o transformou em uma das aves mais capturadas do Sudeste brasileiro.
Ramphastos toco
O maior tucano do mundo e dono do maior bico proporcional entre todas as aves, um bico que também funciona como radiador de calor.
Forpus xanthopterygius
O menor psitacídeo do Brasil, do tamanho de um pardal, viaja em bandos rápidos que passam quase invisíveis e delatam-se apenas pelo chiado agudo.
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